16.7.07

Corpofala



No seu corpo nu
Fiz um nome:
Verbos,
Advérbios,
Adjetivos,
Substantivos e me viciei.

Comecei acentuando aos poucos,
Obedecendo as regras.
Pontuei tudo direitinho:
Ponto por ponto,
Vírgula por vírgula.

Segui a regência do seu corpo
Com todos os vícios de linguagens.
Por que razão eu não sei.
Só sei que fiz porque precisava.
Nessas horas não se compreende
O porquê de tamanha loucura.

Estava tudo em concordância:
Pois as orações, subordinadas,
Me obedeciam completamente.

Quando dei por mim
Seu corpo estava todo riscado:
Os verbos estavam de ligação com os sujeitos.
As figuras de linguagem se comunicavam
Com as figuras de som.

Usei metáforas para dizer o que pensava,
Em nenhum momento disse um eufemismo.
Meu discurso foi direto e cheio de ironias.

Fui dramático, lírico e épico.
Abusei das hipérboles e
Usei mil sinônimos
Pra que você compreenda
a minha gramática.

E agora que coloquei
O ponto final,
Seu corpo fala.

No Silêncio

No silêncio do corpo de uma mulher
Pode-se escutar mil sons
Aparentemente inaudíveis.
Basta apenas um ouvido
Bem treinado.

No silencio do corpo de uma mulher
Escuta-se com os olhos,
Com as mãos,
Com a boca,
Com o nariz,
Com o corpo.
E também com os ouvidos.

14.7.07

Prova


Para entrar na minha vida você teve que fazer uma prova.
E foi reprovada!
Mas mesmo assim você entrou.
Não sei por qual porta.
Não sei por qual janela.
Não sei bem por onde, mas entrou.
Estou aberto,
Mas sou fechado.
Que seja como for.

Paisagens



Pela janela do trem a paisagem ia passando. Meus pensamentos não acompanhavam. Pelo contrário, estavam fixos martelando um assunto de vários dias, várias noites, meses, anos... E a paisagem ia se perdendo pelo caminho.

Em cada estação, um rosto que fica e outro que vai. Meus olhos apenas acompanham. Ali sentado, ouvindo o apito do trem, escutava-se também a boca das pessoas que se mexiam falando algo. Os olhos curiosos corriam de um canto para o outro.

Percebi que outras pessoas também acompanhavam as paisagens; que seus pensamentos, por alguns instantes, se desligavam e saiam passeando até o apito do trem quebrar a concentração.
E na medida em que avançava, eu, naquele balanço, comecei a deixar meus pensamentos em cada paisagem que via por aquela janela para quem sabe um dia, ao passar ali novamente, pegá-los de volta.