28.2.09

Má notícia

– E voltamos já com más notícias! – Falou o apresentador do telejornal recolhendo os papéis espalhados por cima de sua mesa. Fiquei um tempo pensando se tinha escutado bem ou se ele tinha tropeçado na sua própria língua.

Escutei com certo espanto aquele almofadinha engravatado que vomitava diariamente as mesmas baboseiras e desgraças da vida alheia. A única diferença é que as desgraças que abrem o noticiário só mudam de lugar e acontecem com pessoas diferentes, de resto é todo dia a mesma coisa: morte, brigas, corrupção... Não sei se vocês já perceberam, mas a maioria dos noticiários começam sempre com as desgraças e quando acaba a reportagem, em seguida vem outra nada a ver com a anterior. E assim vamos esquecendo os infortúnios da vida (principalmente os alheios) como se estes não tivessem acontecidos. Então dei uma zapeada nos canais e desliguei a TV. Fui dar uma volta pela cidade e respirar ar puro. Era noite, já passava das 20h00. Tranqüilidade. Não muito longe de minha casa ficava meu escritório de advocacia. Fui andando até lá, só pra passar de frente, não tinha mesmo o que fazer.

Antes mesmo de dobrar a esquina sinto um cheiro de fumaça no ar. Ao virar à esquerda vejo meu escritório ardendo em chamas iluminando a cidade. O fogo parecia procurar o céu e os papéis queimados dançavam no ar ao sabor do vento. Não consegui nem mesmo me desesperar. Um silêncio se abateu sobre mim e nos meus olhos brilhavam aquelas chamas. Nenhuma reação, nenhuma lágrima, nenhum gesto... nada. Dobrei a esquina e fiz o mesmo caminho de volta pra casa. Sentei no sofá, peguei o controle remoto que estava ao lado e liguei a televisão.

Dizem que a TV tem um poder anestésico que provoca uma certa apatia, um desinteresse, uma impassibilidade e era justamente isso que eu queria naquele momento: esquecer por uma longa sucessão de segundos, minutos, horas... tudo aquilo até o outro dia. Mas eis que Deus ou sei lá quem ou o quê, na sua mais profunda perversidade, resolve me maltratar metendo o dedo na minha ferida. Ao ligar a TV aquele almofadinha engravatado estava lá de volta. A cara asséptica, paletó e gravata e com a mais profunda frieza anunciava em seu programazinho a minha desgraça para milhões de telespectadores apáticos: – escritório de advocacia pega fogo no centro da cidade.

Não, ele não tinha tropeçado em sua língua. Ele cumpriu sua promessa. Esta era realmente uma má notícia!

9.2.09

Aquela música

Foi com entusiasmo que ele mostrou pela primeira vez a sua música favorita para ela. Ligou o aparelhzinho e colocou o fone de ouvido respeitando cada um dos lados: o Right, no ouvido direito e o Left, no ouvido esquerdo. Deu o play e enquanto a música tocava observava atentamente a sua expressão.

Quanta indiferença! Escutou, fez um comentário qualquer e foi embora. Isso lhe lembrou imediatamente o poema de Baudelaire “Os Olhos dos Pobres” (Spleen de Paris). Nem sempre as pessoas estão na mesma freqüência de pensamento e idéias.

Pegou seu player e foi escutar a música sozinho pensando naquilo tudo. Não havia nenhum problema com a canção, pensou solitário com seus botões. A ocasião era a mais apropriada possível e a música caia perfeitamente naquele instante. E aí? O que será que teria acontecido?

Depois de um tempo chegou a uma conclusão: às vezes, o melhor a se fazer é não fazer nada, pois nada há para se fazer.