24.11.09

Livro

O livro guarda dentro de si uma voz. A voz daquele que o escreveu, ficou lá dentro presa. E dentro de nossa cabeça sempre ouvimos a voz do autor. As idéias que fervilhavam na cabeça do autor agora livro.
O livro quando aberto salta uma voz que ninguém mais ouve a não ser nós. Ler é bom para quem gosta de ouvir a voz que conta estórias sobre as coisas que o autor inventou.
O autor é meio Deus, meio homem: inventa as palavras, inventa os livros... Inventa a dor, os aromas, a visão.
O livro guarda uma voz que fala. A fala nem sempre é entendida. A letra é a tradução gráfica da fala.



Não sei

Sobre a mesa que escrevo, alguns livros se estendem de forma um tanto desorganizada. Eles me servem para fins diversos e cada um deles fala sobre determinado assunto que seus autores acreditam ter algo de muito importante a dizer.
Fiquei pensando se daqui há algum tempo eles ainda me serão importantes; se cada um desses autores merecerão uma releitura ou se serão expulsos de uma vez por todas da estante. No dia que eu transbordar, retomarei esse assunto com cada um deles.



Quando chove fica rio a minha rua.


Lá no rio tem uma casa
Que fica na beirada
Quando chove dá musquito
Quando seca dá piaba
A rua fica debaixo do rio
Que passa indiferente
O mato cresce ao redor
Ao redor da gente.

Mulher do ônibus jogou
Lixo na rua
Acumulou água ao redor
Ao redor da minha casa
Agora água, lixo e mato



Hein?


Foi da ultima vez que eu disse quando. Na mesma hora que você falou qual. Era ele que tava dizendo que ia quem? Naquele canto que você me disse que tinha onde. Fui eu que falei que era você o que.

4.11.09

Navegantes silenciosos

Um certo cantor baiano ajudou a popularizar entre nós a seguinte frase: "navegar é preciso, viver não é preciso". Antes dele, o poeta português Fernando Pessoa imprimiria a frase em seu poema "Navegar é preciso", de 1914. Até aí tudo bem, pois imagino que muitos já tenham ouvido a música e tomado conhecimento da poesia. O que poucos sabem, imagino eu, é que a frase é bem mais antiga.

Cerca de 70 a.C., Pompeu, general romano, foi enviado à Sicília com o objetivo de escoltar uma frota para Roma via mar. Antes da saída alguém previu uma tempestade, os marinheiros amedrontados se recusavam a seguir viagem quando o general disse aos seus homens: "Navigare necesse, vivere non est necesse".

Fiquei pensando na atualidade da frase. Mesmo tanto tempo depois, a asserção de Pompeu parece atualíssima, até mesmo em tempos de internet. Explico: dia desses instalei no blog um desses contadores de visitas que localizam numa espécie de globo de onde vêm os acessos. Daí que fiquei visualizando alguns poucos desses pontinhos que brilhavam no globo vindo de lugares diferentes. Por um tempo fiquei pensando nesses navegantes silenciosos que, ao contrário dos navegantes de Pompeu, se lançam a cruzar o cyberespaço a procura de algo. Fiquei pensando quem seriam estes aventureiros e por quais caminhos chegaram até aqui. Tentei imaginar o que pensavam ao aportar e lançar âncora aqui, mesmo que por alguns minutos. Se voltariam outras vezes ou não...

Por fim pensei: Pompeu estava certo! Navegar é preciso, pois posso precisar de onde vêm os navegantes. Mas viver não é preciso, não posso precisar a vida, os hábitos, a morte, enfim, a subjetividade desses navegantes silenciosos.