Antes de mais nada eu queria dizer que foi tudo mentira. Que
eu sou uma mentira. Eu não sou apenas um personagem, mas, o personagem. E que
escrevo para exorcizar. Mas só escrevo mentiras, que tudo que falei também foi
mentira, tudo ensaiado, decorado; letra por letra, palavra por palavra e não
errei uma vírgula.
Sou uma escola de teatro, o melhor ator da cidade. Cansei de
quebrar a perna e pisar na merda. Emoções ensaiadas, expressões perfeitas. E
faço tudo isso sem nenhuma maquiagem, como se não fosse realmente eu.
Antes de mais nada eu queria dizer que não me arrependo de
nada que causei, se é que causei. No palco da vida se ri e se chora e daqui a
pouco tudo passa. Apenas cumpri meu papel, esse é meu trabalho. Desperto
emoções, afloro sentimentos. E quando as cortinas se fecharem e o aplauso do
público cessar, eu respiro fundo e troco de máscara e tudo começa novamente. Um
eterno mise-en-scène. Mas, só que agora o show já terminou e antes de mais nada
eu queria dizer que tudo é mentira, assim como tudo que escrevo é mentira.

1 comentários:
"o poeta é um fingidor [...]" e o cronista também.
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