Não pude deixar de notar. Não sei
se era charme ou vaidade de mulher que, sem refletir muito sobre os efeitos de
seus gestos, exagera na dose. Por ser uma mulher vaidosa confesso que as
consequências de tais gestos, longe de serem ruins, me davam uma sensação de
suspensão espaço-temporal enquanto contemplava-a, além de me fazer esquecer a
dor no pé que me causava o sapato e o desconforto daquele ônibus apertado.
Quando percebi, tudo parou. Não
consegui mais desviar o olhar, pois ela, indiferente a tudo e todos, mexia com
uma mão nervosa em seus cabelos e aqueles cachos se agitavam com uma ferocidade
que meus olhos acompanhavam numa tremenda atenção. Quando amarrados, não havia
até então percebido sua beleza lasciva que vinha agora em doses suaves a cada agito
frenético.
Minha tese sempre foi a de que os
cabelos cacheados – não sei por que mistério da natureza – são mais cheirosos
que os cabelos lisos. Talvez os cachos tenham o poder de conservar em suas
dobras os odores dos xampus e outros cosméticos que a vaidade feminina não
dispensa. E neste dia tive a comprovação: a cada sacudida no cabelo, o cheiro
vinha como uma onda suave. Acho mesmo que ela fazia isso pra provocar, só podia
ser. Deveria estar se achando. Mas, ela podia se achar o quanto quisesse, eu
não me importava.
Esses pequenos acontecimentos do
cotidiano têm um poder diferente sobre nós. Em pouco tempo me desliguei da
lista de coisas e compromissos que martelam na cabeça em forma de lembretes da
mente. Freud chamaria isso de Ego, princípio da realidade, razão...
Depois que desci na minha parada,
quase me arrependi de não ter olhado quem era aquela mulher. Eu não, já tenho
problemas demais.
"Me deixe respirar, por longo, longo tempo, o cheiro de seus cabelos, neles mergulhar todo o meu rosto, como um homem sedento na água de uma fonte, e agitá-los com minha mão como a um lenço cheiroso, para sacudir lembranças no ar” [...]. (Um hemisfério numa cabeleira - Charles Baudelaire - Spleen de Paris)

1 comentários:
o cotidiano sempre seduz os olhos que se deixam levar.
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