9.11.11

Nem olhei pra trás


 Não pude deixar de notar. Não sei se era charme ou vaidade de mulher que, sem refletir muito sobre os efeitos de seus gestos, exagera na dose. Por ser uma mulher vaidosa confesso que as consequências de tais gestos, longe de serem ruins, me davam uma sensação de suspensão espaço-temporal enquanto contemplava-a, além de me fazer esquecer a dor no pé que me causava o sapato e o desconforto daquele ônibus apertado.
Quando percebi, tudo parou. Não consegui mais desviar o olhar, pois ela, indiferente a tudo e todos, mexia com uma mão nervosa em seus cabelos e aqueles cachos se agitavam com uma ferocidade que meus olhos acompanhavam numa tremenda atenção. Quando amarrados, não havia até então percebido sua beleza lasciva que vinha agora em doses suaves a cada agito frenético.
Minha tese sempre foi a de que os cabelos cacheados – não sei por que mistério da natureza – são mais cheirosos que os cabelos lisos. Talvez os cachos tenham o poder de conservar em suas dobras os odores dos xampus e outros cosméticos que a vaidade feminina não dispensa. E neste dia tive a comprovação: a cada sacudida no cabelo, o cheiro vinha como uma onda suave. Acho mesmo que ela fazia isso pra provocar, só podia ser. Deveria estar se achando. Mas, ela podia se achar o quanto quisesse, eu não me importava.
Esses pequenos acontecimentos do cotidiano têm um poder diferente sobre nós. Em pouco tempo me desliguei da lista de coisas e compromissos que martelam na cabeça em forma de lembretes da mente. Freud chamaria isso de Ego, princípio da realidade, razão...
Depois que desci na minha parada, quase me arrependi de não ter olhado quem era aquela mulher. Eu não, já tenho problemas demais.


"Me deixe respirar, por longo, longo tempo, o cheiro de seus cabelos, neles mergulhar todo o meu rosto, como um homem sedento na água de uma fonte, e agitá-los com minha mão como a um lenço cheiroso, para sacudir lembranças no ar” [...]. (Um hemisfério numa cabeleira - Charles Baudelaire - Spleen de Paris)



1 comentários:

Tyara disse...

o cotidiano sempre seduz os olhos que se deixam levar.