26.7.15



restava apenas a esperança
na caixa de Pandora
agora não resta mais
pois do que não foi
não há o que se dizer
apenas o silêncio
primeira mulher
obra dos deuses
a que tudo dá
a que tudo tira
o sol que traz a luz
para uma parte do globo
eclipsa a outra parte
quis as moiras
ao tecer o fio da vida
que a vida fosse a morte
e que a morte fosse o começo
e havia apenas uma exigência:
decifra-me ou te devoro

20.7.15

Montevidéu 20.07.15



Da janela que se abre
para o vento frio,
o arrepio.
As ruas que se abrem
para o passo,
teu abraço.

16.7.15

Montevidéu 15.07.15












A distância tanto faz
longe como agora se vai no tempo
contratempo de quem ausente
caminha pela cidade distante
ruas, quadras, prédios e tédios
nos rostos ausentes de quem passa
na praça caminha pra onde
pra longe
adelante
adivinham na minha cara
de onde venho
meu endereço na pele
minha cultura na ponta
da língua
no meu gingado de malandro
me língua, pois me gusta
agora disfarço e penso
com a cabeça de ontem
como é boa esta calefacción



9.7.15

Diz a verdade mentindo, pressinto
Sabe que sei, talvez
Pensa que me ama, bacana
Me espera na cama, me engana

28.4.15

24.4.15

A noite















A noite
é pura sinfonia:
gato,
grilo e
rã que coaxia.


Ps.: Tensionamos o verbo coaxar numa conjugação para além
da normal de modo que pudesse rimar com sinfonia.

5.3.15

às vezes leio poesia















às vezes leio poesia.
é que gosto de uma Pessoa
que me dá Bandeira.
ela Leminski
e mora na rua Augusto,
Augusto dos Anjos.
na Quintana da casa dela
tem um Baudelaire
da cor de um Bilac.
mas Drummond, José & outros
Abreu o jogo pra mim:
pela Brecht da porta
viram ela no Matos
com Alves.

22.2.15

Um livro











Comprei um livro 
que a traça roeu 
o que farei eu?
quero saber 
o que ela tanto sabe

7.2.15

Das coisas

Das palavras que se diz
Das bocas que se falam
Dos cantos que ouvi
Dos dias que se passam e passam e passam

Dos caminhos que se andam
Das estradas que se vão
Dos amores que se amam
Dos amores que se não

Das cartas que escrevi
Das que ainda espero resposta
Do que ainda não entendi
Do que não tem mais volta

22.12.14

E eu ponto

Uma palavra me persegue
Uma frase me persegue
Um alfabeto inteiro me persegue
E eu ponto

30.6.14

Alegria de menino


Corria atrás da bola despreocupadamente, soava mais que maratonista, era fim de tarde. No outro dia era a mesma coisa: chutar a bola com cuidado pra não bater no portão da velha Jandira que colou prego porque não aguentava mais as boladas dos moleques da rua.

Em casa, sempre nos mandavam estudar e gastar menos... menos água, luz, telefone...: “você não sabe de onde vem o dinheiro que paga as contas” e blá, blá, blá... Realmente, criança não sabe dessas coisas e nem precisa saber.

Me esforçava pra jogar legal, vai que um olheiro tá de olho e me leva pra jogar em algum clube. Depois, já adolescente, descobri que não gostava de futebol, preferia ouvir música e quando a turma se reunia pra discutir o jogo do dia anterior eu sempre sobrava. Mas não me importava, tinha aprendido uma música no violão enquanto os bobões corriam atrás da bola. Gostava mesmo da pelada, da reunião dos amigos e de impressionar a vizinha que, talvez, estivesse olhando os meninos da rua jogar. Ah, a vizinha!

Depois a gente abusava e ia soltar pipa ou jogar bola de gude ou tomar banho de rio ou apostar corrida ou brincar de cuscuz ou barra bandeira ou roubar goiabas no terreno da escola nos fins de semana. E quando chovia forte era aquela alegria, corríamos pra tomar banho de bica e chutar a poça de lama no amigo mais próximo.

Os dias eram longos e a gente não pensava muito nas coisas da vida, bastava apenas viver a vida. Nossos pais começavam a ter cabelos brancos, eram jovens, mas adultos e quase sempre nos chamava a atenção por isso ou por aquilo.

Em tempos de festa de fim de ano ou de São João todos da rua se reuniam pra comemorar, era bonito aquilo tudo e sempre voltava pra casa fedendo a fumaça das fogueira e das bombas e fogos que soltávamos na rua. Quando chegava em casa ia na cozinha beliscar algo pra comer e depois se jogava no sofá para assistir a TV: gastar o tempo era o melhor passatempo.

E quando gastamos pra valer nosso tempo de criança/adolescente fomos pego (de surpresa?) na esquina do tempo. E aí aprendemos de onde vem aquele misterioso dinheiro que paga as contas e blá, blá, blá... Quando saí de casa, nos meus vinte e poucos anos, levei meu violão e a vontade de ganhar o mundo. Hoje, quando volto, me deito no safá em frente à TV e sinto aquela mesma sensação de antes. Casa dos pais, comida de mãe e beijo na cabeça: “vai com Deus, meu filho... Jesus te abençoe”.

Já há algum tempo começou a surgir alguns cabelos brancos, sou jovem, porém adulto... Quem inventou o tempo foi mesmo um malandro gozador. Há de ser... Pra driblar as expectativas digo sempre que sou um jovem com responsabilidades de adulto... e que procura sempre manter a alegria de menino, apesar da vida, apesar do peso da vida.

18.9.13

Viver

Viver é esgotar cada segundo do seu tempo. É deixar que o tempo te marque sem segunda chance. A experiência é o que você leva de melhor.

31.7.13

Cem nortes











Caminho
no passo
contra o vento
contratempo
semitons
sem mitos
cem mapas
cem nortes
[...]
e segue a avida em descompasso.

21.7.13

Aroma


Sentiu um aroma que remeteu-lhe os sentidos a um momento específico de sua vida: tentou lembrar na mesma hora. As lembranças vinham aos poucos, devagar... Despertaram algumas imagens turvas que tentava reavivar fechando os olhos.

Não fosse sonho, mas realidade, voaria ligeiro como só no pensamento é possível. Piscar de olhos que no instante fechou, mas já estava aberto. Estaria lá novamente embevecido reexperienciando aquela experiência olfáctica tão marcante. Voltaria outro, com certeza, remarcado ao nível de Jean-Baptiste Grenouille. 

24.4.13

O parque





O parque girava pra cima, pra baixo, pra frente e para trás freneticamente. As crianças com largos sorrisos se divertiam com a novidade que acabara de chegar à cidade.


Segurando as grades que separavam o lado de dentro do lado de fora, que separavam a alegria proporcionada pelos brinquedos do mundo monótono e hostil, uma criança, que vestia apenas um short rasgado, assistia a tudo maravilhada.

No rosto um leve sorriso de criança que o mundo ainda não desensinou a sonhar.

22.3.13

Rastro de estrela


Abria e fechava a mão como quem tentava pegar o vento. Era fim de tarde, mas o sol ainda lançava seus raios que esquentavam a pele do rosto. A estrada ia até onde podia ir o olhar. As árvores, os bois, o mato, as pessoas, passarinhos e crianças no meio do caminho passavam rápido pela janela.

O vento batia forte lançando a mão fechada em forma de concha para trás. O pensamento ia longe procurando lembranças do futuro que ficaram nas paredes da memória e que surgiam como sinapses, impulsos nervosos comunicados para todo o corpo, correndo por todo o corpo, se espalhando por todo corpo...

Soltou o vento quando abriu a mão em forma de cinco e seguiu deixando um rastro de estrela pendurado no ar invisivelmente interessante. 

6.3.13

Segundos antes de morrer


Segundos antes de morrer me lembrei da flor no cabelo da menina, lembrei do passarinho que procurava o ninho depois que  podaram a arvore; me lembrei também do sorriso da criança e do aluno analfabeto que queria aprender a ler para ajudar a filha nos deveres de casa... Me lembrei de como a música me fazia bem e como era bom sentir o vento bater no rosto. Lembrei das brincadeiras de criança, dos banhos de rio; me lembrei da primeira vez, da segunda, da terceira e da última. Lembrei de como o dia fica bonito quando chove e da alegria das plantas que sorriem um sorriso verde nesses dias; lembrei da comida de minha mãe e dos amigos. Me lembrei de tanta coisa que mal cabia no pensamento. E fui me lembrando, lembrando e lembrando... até me esquecer. Até me esquecerem.