
Peguei meu saco de lixo. Desci os dois andares do prédio em que moro e me dirigi ao local destinado ao depósito de tal material. Na medida em que me aproximava, percebi que para aquele lixo havia diversos destinos possíveis.
Trazia em uma das mãos aquilo que se convencionou chamar de lixo orgânico (resíduos de comida, frutas e coisas que a natureza, com sua sapiência silenciosa, absorve por si mesmo); na outra, lixo reciclável (plástico, vidro, papelão, metais e todos aqueles objetos que são produtos da criação humana). Na minha cabeça eu tinha dois destinos para cada um desses sacos que trazia: um deles iria para o lixo que seria recolhido pelo carro da prefeitura e o outro seria colocado separado do primeiro para ser recolhido e reciclado.
Pois bem, temos aí um pequeno exemplo de racionalização e da forma como a sociedade atual destina os seus resíduos. Mas eu não sabia que esta racionalização envolve um tipo de relação social bem específica. Então percebi, ainda há caminho do local em que jogaria o meu lixo, que além dessas “duas espécies” de lixo havia outras.
Além do lixo reciclável e do lixo orgânico havia também o lixo que servia como subsistência de um grande número de miseráveis. Estes, logo cedo, antes mesmo de nos acordarmos, recolhiam aquilo que poderia servir para ser vendido ou até mesmo consumido. Aquilo que, para nós, já não teria nenhuma serventia. Aquilo que eu estava indo jogar no lixo naquele momento.
Percebi então que a coisa é bem mais profunda e complicada do que eu poderia imaginar. É claro que sabia da existência dessas pessoas, de gente que vive disso. Só não imaginava ou não tinha pensado sobre a existência de uma lógica racional que operava na relação que as pessoas tinham com seu lixo e com as outras pessoas. Isso pelo fato de perceber que além do lixo orgânico e do lixo reciclável, há também “outras espécies de lixo”: como aquele que já não serve mais para alguém, mas que pode servir para outros. Exemplo: um móvel, roupas velhas, brinquedos etc.
No caminho percorrido para jogar meu lixo, percebi essas outras “espécies” de lixo, coisas que as pessoas do condomínio onde moro iam deixando, cada um em seu local específico, para que terceiros dessem o fim que quisessem.
Foi assim que vi funcionando certo tipo de acordo “provisório” entre duas partes que se “privilegiavam” com esta situação. Mais que isso: esse “acordo” tem suas regras, tem seus pode e seus não pode. Desta forma, um dos lados facilita deixando os portões de trás do condomínio abertos, em determinados horários, para que algumas pessoas possam pegar aquilo que elas acham que têm algum proveito para si. Por sua vez, os catadores de lixo fazem uma “limpeza parcial” do lixo “dos bacanas”.
Poderíamos até mesmo brincar agora e dizer que há um lixo para tudo que é gosto. Mas, com certeza, se fosse dada as condições materiais para estas pessoas, elas não estariam ali catando lixo para sobreviverem.
Ao chegar ao local destinado para se colocar os resíduos do condomínio, foi com o pesar mais profundo que depositei o meu lixo orgânico em um local e o meu lixo reciclável em outro. E assim seguimos alimentando esse sistema.