29.10.08

O lixo dos condomínios: racionalização desagradável


Peguei meu saco de lixo. Desci os dois andares do prédio em que moro e me dirigi ao local destinado ao depósito de tal material. Na medida em que me aproximava, percebi que para aquele lixo havia diversos destinos possíveis.

Trazia em uma das mãos aquilo que se convencionou chamar de lixo orgânico (resíduos de comida, frutas e coisas que a natureza, com sua sapiência silenciosa, absorve por si mesmo); na outra, lixo reciclável (plástico, vidro, papelão, metais e todos aqueles objetos que são produtos da criação humana). Na minha cabeça eu tinha dois destinos para cada um desses sacos que trazia: um deles iria para o lixo que seria recolhido pelo carro da prefeitura e o outro seria colocado separado do primeiro para ser recolhido e reciclado.

Pois bem, temos aí um pequeno exemplo de racionalização e da forma como a sociedade atual destina os seus resíduos. Mas eu não sabia que esta racionalização envolve um tipo de relação social bem específica. Então percebi, ainda há caminho do local em que jogaria o meu lixo, que além dessas “duas espécies” de lixo havia outras.

Além do lixo reciclável e do lixo orgânico havia também o lixo que servia como subsistência de um grande número de miseráveis. Estes, logo cedo, antes mesmo de nos acordarmos, recolhiam aquilo que poderia servir para ser vendido ou até mesmo consumido. Aquilo que, para nós, já não teria nenhuma serventia. Aquilo que eu estava indo jogar no lixo naquele momento.

Percebi então que a coisa é bem mais profunda e complicada do que eu poderia imaginar. É claro que sabia da existência dessas pessoas, de gente que vive disso. Só não imaginava ou não tinha pensado sobre a existência de uma lógica racional que operava na relação que as pessoas tinham com seu lixo e com as outras pessoas. Isso pelo fato de perceber que além do lixo orgânico e do lixo reciclável, há também “outras espécies de lixo”: como aquele que já não serve mais para alguém, mas que pode servir para outros. Exemplo: um móvel, roupas velhas, brinquedos etc.
No caminho percorrido para jogar meu lixo, percebi essas outras “espécies” de lixo, coisas que as pessoas do condomínio onde moro iam deixando, cada um em seu local específico, para que terceiros dessem o fim que quisessem.

Foi assim que vi funcionando certo tipo de acordo “provisório” entre duas partes que se “privilegiavam” com esta situação. Mais que isso: esse “acordo” tem suas regras, tem seus pode e seus não pode. Desta forma, um dos lados facilita deixando os portões de trás do condomínio abertos, em determinados horários, para que algumas pessoas possam pegar aquilo que elas acham que têm algum proveito para si. Por sua vez, os catadores de lixo fazem uma “limpeza parcial” do lixo “dos bacanas”.
Poderíamos até mesmo brincar agora e dizer que há um lixo para tudo que é gosto. Mas, com certeza, se fosse dada as condições materiais para estas pessoas, elas não estariam ali catando lixo para sobreviverem.

Ao chegar ao local destinado para se colocar os resíduos do condomínio, foi com o pesar mais profundo que depositei o meu lixo orgânico em um local e o meu lixo reciclável em outro. E assim seguimos alimentando esse sistema.

20.10.08

EUtnografias #2

Tédio

Enquanto Caetano canta “samba e amor” do Chico, vou escrevendo estas linhas como quem procura inspiração na audição da música de poesia refinada estilo Noel Rosa. A falta de assunto que se ancora e parece não querer sair, termina virando assunto também por aqui.

Neste domingo monótono, passo longe da televisão para não cair na tentação de pegar o controle e ver a programação. Nessas horas fico pensando aonde vamos chegar com esses programas; a criatividade não chegou ao seu limite, espero. Ler um livro pode ser um bom programa, mas o barulho da televisão nos alcança aonde quer que nós nos escondamos. E qualquer barulho nos é prejudicial.

E enquanto vou escrevendo, ouço a vizinha chegando no apartamento ao lado. A voz de robô, inconfundível, a denuncia até mesmo há quilômetros de distância. Sei que é ela, primeiro, pela voz, segundo, por que sempre chega falando com seu gato siamês, como se o gato fosse seu filho. Mas o mais interessante é que a filha dela chama o gato de irmão. Aí eu não sei mais aonde é que estamos. Às vezes acho que o estranho sou eu, que as pessoas evoluíram e eu fiquei para atrás. Chego a pensar que isso tem alguma ligação com o fato de eu não assistir ou assistir pouco a TV. E as coisas vão dando um nó na minha cabeça.

Caetano segue cantando. Daqui a pouco retomo Balzac, aquela leitura que parece não ter fim. Uma pausa para o café e um fuminho bom.

O barulho vem do apartamento ao lado: a mãe discute com a filha (ou será o contrário?). Por mais que não me interesse, é impossível não ouvir a discussão, pois é costume da vizinha deixar a porta do apartamento aberta só com a grade. Agora é que não dá pra ler mais nada! E o gato, “filho” da vizinha e “irmão” da filha dela assiste a tudo sem nada entender com o olhar curioso dos gatos.

Agora que já consegui uma quantidade de parágrafos razoáveis para postar neste blog, me lembro que é melhor parar por aqui.

Domingo. Algum dia de outubro de dois mil e oito. Que poderia ser um, vinte e dois, trinta...

17.10.08

EUtnografias

- Vou escrever logo isso antes que me esqueça!

Falei pra mim mesmo me dirigindo rapidamente para o teclado do computador esquecendo sobre a mesa a xícara de café mal tomada. Rolava um sonzinho de fundo, coisa nova que uma amiga tinha me passado.

Certas músicas têm um poder especial. Semana passada um colega me falava que às vezes passava semanas ouvindo certo álbum. Isso também acontece comigo. E ouvi tanto certo cantor que já tem mais de uma semana que um trecho da música não sai da minha cabeça, fica repetindo, repetindo...

Mas não é bem sobre isso que eu queria falar. Eu dizia que certas músicas têm um poder especial. Algumas delas conseguem nos transportar para um tempo, um lugar. É como se voltássemos a viver aquele contexto em que estávamos ouvindo a música. É um tanto nostálgico, eu sei. Talvez por isso que eu não goste tanto. Às vezes sinto que a música ficou datada, embora seja uma ótima canção e que mereça ser revisitada.

Certos odores, cheiros também têm esse poder. Certa vez senti um cheiro que me lembrou algo da infância. E como explicar isso? Simplesmente sabia que aquele cheiro não era algo novo, que fazia parte do meu passado. E quando o senti novamente, me vieram as mais diversas lembranças.

Talvez esse sonzinho que está rolando de fundo agora enquanto escrevo, amanhã não me agrade tanto. Talvez, num futuro próximo, quem sabe, ele me lembre este texto. Me lembre este blog. E assim vou somando, somando, somando... E minha passagem por este mundo vai se transformando numa acumulação auditiva, uma acumulação de odores e outros sentidos.

5.10.08

Algumas palavras sobre o olhar[1]

Embora nós, animais racionais, não tenhamos uma visão tão desenvolvida quanto a de outros animais, somos os únicos a usá-la de forma que nos auxilie na conquista do sexo oposto. Diria que o olhar é a primeira investida nesse sentido (o da conquista), através dele deixamos transparecer e percebemos os flertes, primeiros mensageiros da conquista. Neste sentido somos o Cupido (conhecido também como Eros, o deus do amor na mitologia grega) que lança suas flechas (o olhar) fazendo com que suas vítimas caiam numa profunda paixão.


Desde a antiguidade grega, o olhar tem um laço imaginário com a sexualidade onde "o olho é um meio de possuir — ou de ser possuído — completamente análogo aos órgãos sexuais, que possuem e são possuídos". Entendendo-se, dessa forma, que o olhar, enquanto meio primeiro da conquista, é o que levará a sua consolidação através do ato sexual.


Bebendo ainda nas fontes mitológicas, encontramos também a lenda de Narciso. Filho do deus Céfiso e da ninfa Liríope, que segundo a advertência do adivinho Tirésias, "viveria melhor se não se olhasse. Belíssimo, chegando a idade adulta, Narciso tornou-se objeto da paixão de um grande número de moças e de ninfas, mas sempre se mostra insensível ao amor. Os pedidos de vingança das mulheres atraem para ele as iras de Nêmesis. Um dia, Narciso se inclina numa fonte para matar a sede. Percebe então seu rosto e dele se enamora. Daí em diante, absolutamente indiferente ao mundo, debruça-se sobre a sua própria imagem e se deixa morrer".


Contada e cantada através dos tempos, todos nós conhecemos a estória de Narciso que tendo dispensado o amor da ninfa Eco, faz com que essa procure a deusa da vingança (Nêmesis) pedindo-a que Narciso soubesse algum dia o que é o amor e não ser correspondido. O resto da estória já sabemos. O que poucos sabem, porém, são as palavras ditas por ele ao se ver no lago:


— Fica, peço-te! Deixa-me, pelo menos, OLHAR-TE, já que não posso tocar-te.


Aqui, o olhar aparece como única opção de alguém diante de um amor impossível; como o único sentido capaz de amenizar a falta que os outros fazem, ou seja, ouvir, sentir, cheirar e degustar a pessoa amada. Narciso via apenas, através do olhar, a sua imagem refletida na fonte e como o olhar era a sua condição primeira e última para conquista de si mesmo, o jovem Narciso morre aos poucos às margens da fonte. A lenda ainda conta que após morrer, a sua sombra ao atravessar o rio Estige, debruça-se sobre o barco para numa última tentativa avistar-se na água. Até mesmo após sua morte, Narciso tenta se OLHAR nas águas do rio, numa forma de guardar na lembrança a sua imagem.


Trazendo essa discussão sobre o olhar para uma época mais contemporânea, temos a célebre frase que diz: "os opostos se atraem". Não creio eu que essa afirmação seja aplicável, pelo menos no campo das relações entre as pessoas. Talvez seja infalível na química estudada pelos cientistas. Mas quem são os cientistas para aplicá-la nas relações e no amor, tendo em vista que esse último não é uma ciência exata como a matemática?


Avançando um pouco mais no tempo, "os neoplatônicos dos séculos XIV e XVI chegaram mesmo a definir o verdadeiro amor como pura contemplação, de tal maneira que o que se vê se torne idêntico àquele que é visto. O amor é visão dividida. Os olhares se confundem com os corações e mais perfeitamente com que os sexos". Vemos então a importância do olhar, do ver como ponto de partida para a relação. E quando olhamos, procuramos o que primeiro nos mostra a beleza, depois nos procuramos na outra pessoa. É a procura pelas mesmas características, pelo comum. Nessa hora somos Narciso e a outra pessoa o lago e procuramos nos enxergar nesse lago e às vezes morremos nele.


"Efetivamente, o homem só pode amar a si mesmo ou seu semelhante (com o qual possa se identificar) ou então um se transcendente capaz de essencializar a sua humanidade (...) O homem ama a mulher na medida em que ele é essa mulher, e vice-versa. É uma relação em espelho: cada um dos parceiros extrai do outro a si mesmo, ou melhor, a imagem de si mesmo". E antes do amar, de se identificar, e da beleza, vem o olhar. Essa poderosa mágica que nos permite conquistar o mundo através dela. E para terminar esse texto, contarei em algumas linhas a estória de Eros e Psique.


Psique, filha de rei, tinha duas irmãs. A formosura das duas mais velhas era fora do comum, mas a beleza da mais moça era tão maravilhosa que não existem palavras para expressa-lá como merece. A fama de tal beleza era tão grande que estrangeiros de países vizinhos iam, em multidões, admirá-la rendendo a própria jovem homenagens que só se devem a própria Vênus (conhecida também como Afrodite, deusa do amor e da beleza. Nascida da espuma do mar e casada com Vulcano). Vaidosa e vingativa, ao ver os seus altares desertos, a deusa Vênus providenciou para que Psique tivesse motivos para se arrepender de sua beleza. Então, chama o seu filho Eros e lhe diz:


— Castiga, meu filho, aquela audaciosa beleza; assegura a tua mãe uma vingança tão doce quanto foram amargas as injúrias recebidas. Infunde no peito daquela altiva donzela uma paixão por um ser baixo, indigno, de sorte que ela possa colher uma mortificação tão grande quanto o júbilo e o triunfo de agora.


Cupido preparou-se para obedecer às ordens maternas. Pegou suas flechas, umas de água doce e outras de água amarga, e dirigiu-se para o quarto de Psique, que a encontrou dormindo. Derramou, então, algumas gotas de água da fonte amarga sobre os lábios da jovem. Ela acorda e abre os olhos diante de Cupido (ele próprio invisível), que perturbado, feriu-se com sua própria seta. Pensou de imediato em desfazer o mal que fizera e derramou as gotas de alegria sobre os sedosos cabelos da jovem.


Diante de tanta beleza, ninguém ousara casar com Psique. Seu pai ficou desesperado e seguindo porem a indicação do oráculo — que afirmara que sua filha estava destinada a se casar com um monstro — conduziu a filha ao alto de um rochedo, onde a deixou. A moça foi arrebatada pelo vento, adormeceu, acordando no jardim de um palácio magnífico. Foi acolhida por vozes que a guiaram e se puseram a seu serviço. À noite, apareceu-lhe um marido que, sem lhe revelar o nome, advertiu-a de que jamais deveria olhar para ele. Ela viveu feliz desta forma até que um dia pediu ao marido que a deixasse olhá-lo, no que ele disse: – Por que queres me ver? Duvidas do meu amor? Tens algum desejo que não foi satisfeito? Se me visses, talvez fosse temer-me, talvez me adorar, mas a única coisa que peço é que me ames. Prefiro que me ames como igual a que me adores como Deus.


Psique se aquietou por um tempo até que um dia suas irmãs a visitou e lhe despertou o desejo de vê-lo. À noite, Psique tomada por curiosidade, olhou para o rosto do marido enquanto esse dormia e descobriu um belíssimo rapaz (tratava-se de Eros, o deus do amor). Assustado, Cupido abre os olhos e encara Psique e em seguida abre as asas e sai voando e dizendo: – Tola Psique, é assim que retribui meu amor? Depois de ter desobedecido às ordens de minha mãe e ter te tornado minha esposa, tu me julgavas um monstro. Volta para junto de tuas irmãs, o amor não pode conviver com a desconfiança.


Psique passa por mil tormentos, perseguida por Afrodite, mãe de Cupido, na tentativa de se reconciliar a ele. Cupido, então, apresenta-se diante de Zeus e o suplica que a ajude. Zeus advoga com tanto empenho a causa dos amantes que consegue a concordância de Afrodite. Assim Psique ficou finalmente unida a Cupido e, mais tarde, tiveram uma filha, cujo nome foi prazer.


Voltando ao tema inicial (o olhar) podemos concluir que "Eros não queria ser olhado, mas olhava. Psique conquistou, a duras penas, a possibilidade de ver a reciprocidade no olhar".


Ps.: “Psique em grego significa tanto borboleta como alma. Não há alegoria mais notável e bela da imortalidade da alma como a borboleta que depois de estender as asas, do túmulo em que se achava, depois de uma vida mesquinha e rastejante como lagarta, flutua na brisa de um dia e torna-se um dos mais belos e delicados aspectos da primavera. Psique é portanto a alma humana, purificada pelos sofrimentos e infortúnios, e preparada, assim, para gozar a pura e verdadeira felicidade”.



Bibliografia (Alguns livros que ajudaram no desenvolvimento do texto):

• Do Mito a Psicanálise. In: SODRÉ, Muniz. Televisão e Psicanálise. São Paulo, Ática, 1987. P: 13-15.

• BULFINCH, Thomas. O livro de Ouro da Mitologia Grega - Histórias de Deuses e Heróis. Rio de Janeiro, Ediouro, 2001. P: 99-109.


[1] Esse texto foi escrito no dia 19 de junho de 2002, portanto seis anos atrás. Achei-o ao revirar alguns arquivos esquecidos em um CD-ROM gravado na mesma época. Observando-o hoje, me parece um tanto ingênuo. Nunca foi publicado ou divulgado em nenhum meio. Assim, torno-o pública através deste blog.